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Do crachá à experiência cultural

Atualizado: 16 de mar.



Os 5 movimentos para um onboarding que realmente desenvolve jovens talentos


Vamos retomar a cena. (Clique aqui e veja no outro artigo o contexto dessa história)

... Primeiro dia de trabalho em um grande jornal, recém-formado, aquele misto de entusiasmo e medo de errar. A editora me mostra duas fotos de uma jovem modelo para uma coluna de moda e pergunta:

“Qual você acha mais bonita?”

Escolhi a foto 2, direto, sem pestanejar. Ela responde:


“Boa escolha. É a minha filha.”

Fim da história? Não exatamente.


Esse tipo de situação é uma aula condensada sobre o que é entrar em uma cultura que você ainda não conhece, cercado de códigos não escritos, sensibilidades invisíveis e relações que você não faz ideia de que existem.


Em outras palavras: o tipo de risco que um bom processo de onboarding poderia reduzir bastante.


Se no primeiro artigo eu falei sobre o porquê do onboarding ser estratégico, agora vamos para o como.

1. Onboarding como educação para o contexto, não só para a função

A maioria das empresas integra pessoas para o cargo, não para a cultura.


Explica o job description, mostra as ferramentas, apresenta o organograma… e supõe que o resto será aprendido “no dia a dia”.


Só que o “resto” é justamente o que mais derruba jovem talentoso:

  • o tom das conversas

  • o que pega mal e ninguém escreve em lugar nenhum

  • como os conflitos são resolvidos (ou empurrados para debaixo do tapete)


Recomendações práticas:


  • Crie um bloco de “códigos não escritos” no onboarding

    Uma conversa explícita sobre:

    • como são as reuniões (objetivas? informais? cheias de apresentações?)

    • como circulam as decisões (no e-mail, no WhatsApp, no café?)

    • o que costuma ser sensível naquela área (cliente X, tema Y, histórico Z)


  • Use histórias reais, não só slides institucionais

    Em vez de apenas falar de “respeito” ou “colaboração”, conte casos:

    • “Quando alguém agiu assim, o resultado foi esse…”

    • “Aprendemos que, aqui, é melhor abordar desse outro jeito…”


História torna código cultural memorável. Slide, nem sempre.

2. Socializar limites com leveza (especialmente em temas sensíveis)

Jovens profissionais chegam hoje a ambientes de trabalho muito mais diversos e expostos do que há 20 ou 25 anos: diversidade de corpos, sotaques, estilos, identidades, opiniões, presenças digitais.


Ao mesmo tempo, muitos deles tiveram pouco treino presencial em:

  • calibrar linguagem

  • entender até onde vai a piada

  • separar opinião pessoal de postura profissional


Onboarding precisa entrar nesse nível de detalhe, com naturalidade e sem terrorismo.


Algumas práticas:


  • Dar “scripts de segurança”

    Por exemplo:

  • Antes de opinar sobre algo estético (uma foto, um vídeo, uma campanha), pergunte o contexto:

“Qual é o objetivo dessa peça? Quem é o público? Tem algo que eu deva saber antes de opinar?”
  • Ao discordar, troque “isso não faz sentido” por “me ajuda a entender o objetivo por trás dessa escolha?”.


  • Tratar temas sensíveis de forma adulta

    Falar abertamente sobre:

    • limites de exposição de colegas e clientes em redes sociais

    • políticas de diversidade e respeito

    • tom de voz esperado em comunicações internas e externas


Não é sobre censurar, é sobre evitar que alguém aprenda do pior jeito: virando “o comentário infeliz da semana”.

3. Ter um “tradutor de cultura”: padrinhos, madrinhas e buddies

  • “Qual é a melhor forma de responder esse e-mail?”

  • “É normal mandar mensagem pro diretor no WhatsApp?”

  • “Se eu não concordar com essa decisão, falo com quem?”


Essas são dúvidas reais dos primeiros 30, 60 dias. E quase ninguém pergunta por vergonha de parecer perdido.


É aqui que entra a figura do tradutor de cultura:

  • alguém designado (e não “qualquer um disponível”) para:

    • explicar o que não está em nenhum manual

    • traduzir perfis (“fulano é direto, mas não é grosseria, é estilo”)

    • ser espaço seguro para perguntas “bobas”


Como estruturar:


  • definir um padrinho/madrinha ou buddy para cada jovem talento

  • combinar encontros semanais nos primeiros 30 dias, quinzenais nos 60 seguintes

  • deixar explícito: “nenhuma dúvida é pequena demais — melhor perguntar aqui do que testar na reunião com o cliente”


Numa era em que a mentoria informal por convivência está em crise (menos escritório, mais tela), esse papel deixa de ser luxo e vira estrutura.

4. Trazer o gestor para o centro do onboarding

RH desenha a jornada. Quem realmente integra é o gestor.


É a pessoa que:

  • dá exemplo diário de comportamento

  • legitima (ou não) o recém-chegado na equipe

  • abre (ou fecha) espaço para perguntas, experimentação, erro


Por isso, é perigoso quando o líder terceiriza tudo para o RH:


“Fizeram a integração com ele? Então tá resolvido.”

Algumas perguntas que todo gestor poderia responder já na primeira semana:

  • “O que aqui pega mal e talvez ninguém vá te contar?”

  • “Sobre o meu estilo: o que eu faço que costuma assustar as pessoas? E o que eu faço que geralmente ajuda?”

  • “De que forma você pode discordar de mim? Em reunião? Em 1:1? Por mensagem?”


E algumas práticas simples:


  • marcar um 1:1 estruturado na primeira semana, não só “quando der”

  • explicar projetos em andamento e onde o jovem entra neles

  • explicitar expectativas de entrega e de comportamento (não só metas numéricas)


Líder que participa ativamente do onboarding reduz pela metade a chance de “mal-entendidos de caráter”.

5. Integrar também para o erro: ainda bem que você errou aqui

Não existe onboarding à prova de gafe.


A questão não é “se vai acontecer”. É:

Quando acontecer, qual será a resposta da empresa?

Duas possibilidades:

  1. Vira fofoca, apelido, rótulo (“não tem noção”).

  2. Vira conversa, contexto e aprendizado (“deixa eu te explicar por que isso aqui pega mal”).


Empresas mais maduras escolhem sistematicamente a segunda opção.

Caminho prático:

  • Normalizar o erro como parte do processo de entrada

    • Deixar claro que:

    • os primeiros 90 dias são período de “teste e ajuste”

    • ninguém espera perfeição, espera-se abertura para ouvir e corrigir


  • Usar o erro como ponto de ensino de cultura

    • Exemplo de abordagem:

    • “Olha, naquele comentário que você fez na reunião, aqui isso costuma gerar ruído por causa disso, disso e disso. Na próxima, tenta abordar desse jeito…”


O que poderia ser o início de um desligamento precoce vira a base de uma relação mais madura entre líder e jovem talento.

Conclusão: onboarding como investimento em “bom senso acelerado”

Há algo curioso acontecendo no mercado: a tecnologia (especialmente a IA) está acelerando a capacidade técnica de jovens profissionais — eles conseguem produzir análises, textos, apresentações em um nível que antes levava anos para alcançar.


Mas o bom senso organizacional — aquele que te salva de comentar da “foto errada da filha da editora” — continua sendo desenvolvido em ritmo humano: convivência, contexto, observação, conversa.


Onboarding bem feito é uma forma de acelerar, de maneira responsável, esse bom senso:

  • explicita códigos

  • cria redes de apoio

  • aproxima líder e jovem talento

  • transforma gafes em aprendizado, não em rótulo


Para líderes e RH, a pergunta que fica é direta:


Você está tratando onboarding como um evento de boas-vindas…ou como uma ferramenta estratégica para garantir que seus jovens talentos tenham mais contexto do que sorte nos primeiros passos da carreira dentro da sua empresa?


A diferença entre uma coisa e outra pode determinar se a próxima história que você vai ouvir é de um começo brilhante — ou de um talento que se perdeu no primeiro comentário.

Daniel Franco é estrategista de inovação corporativa e desenvolvimento de jovens talentos. Acredita que onboarding bom não ensina só a usar o sistema da empresa — ensina também aquela habilidade essencial da vida corporativa: perceber que “ser sincero” e “falar qualquer coisa que vem à cabeça” não são exatamente a mesma coisa. 😅

 
 
 

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